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superfícies de poema

April 27, 2018

 

deve ter sido após a perda do poema

que ela encontrara a viagem por mar,

que decidira perder a vida no mar,

não fazer mais nada com os poemas

e com o amor a não ser perdê-los no mar.

(marguerite duras, Emily L.)

 

 

 

iniciamos abril e, assim, atravessamos o mês, em companhia das cartas-poema de Emily Dickinson. escutar Dickinson para ler Marguerite. ouvir a voz do texto de Emily L. para compor cartas de amor e não, cadernos com bilhetes - os bilhetinhos com poema, trazidos por Gabriela Llansol, na tradução que faz de Emily Dickinson. um mar-poema.  

 

recolhendo livros para compor o outono, nos deparamos com a possibilidade das folhas, em pequenos gestos, para tecer um caderno em branco, capaz de suportar a escrita de cada um. Emily Dickinson costurava seus próprios cadernos, tecia à mão, aquilo, que em um depois, se tornaria poema - um livro por vir, nos lembra Maurice Blanchot.      

 

nesse movimento de tecer, recebemos o texto de Olga Penna - recolher folhas para compor cadernos. leia, abaixo, o que ela escreve:   

 

 

"à procura inesgotável de um começo, me recordo daquele LP com Chico cantando “o caderno”, numa época em que eu ainda não sabia como era a vida se abrir em carrossel e não conhecia o alívio culpado de rasgar papel escrito. mas eu já sentia que o Chico cantando era uma declaração de amor e colecionava cadernos. só mais tarde, comecei a costura-los.

 

para mim, costurar meus próprios cadernos foi uma resposta. a solução de poder furar o texto em sua materialidade originária.

 

e, no que diz da origem, a palavra texto se aproxima de têxtil, tecido. recordo Barthes:

'Texto quer dizer Tecido; mas enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu acabado, por detrás do qual se conserva, mais ou menos escondido, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia generativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido nesse tecido - nessa textura - o sujeito desfaz-se, como uma aranha que se dissolvesse a si própria nas secreções construtivas da sua teia'.

 

Manoel de Barros produzia os próprios cadernos e talvez aí já fosse poesia...

 

aproximo costura e escrita. a linha e o ponto. trama e enredo. novelo, novela. perder o fio da meada. o texto com suas texturas, tessituras. a borda da página. um bordado mesmo... que produz e enlaça a imagem e seu avesso, uma outra imagem, uma outra história, inevitavelmente".

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