de uma boca para outra


Clarice Lispector é um tipo de boca na qual se beija amorosamente.

Beija-se a boca do texto... em mansa explosão do corpo.

Recebemos, nesses dias, além da voz, o texto de uma querida companheira do ateliê

e leitora-legente de Clarice Lispector. Olga e uma carta de amor.

Leia, abaixo, o texto dela - de uma boca para outra boca.

da boca à voz: encontros com clarice lispector

[...] lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água. E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra. (O primeiro beijo, por Clarice Lispector)

eu me lembro da sede, vinda de não sei onde, a garganta seca nas curvas inesperadas da adolescência... de uma boca à outra, algo atravessou a língua num encontro de corpo com uma mulher chamada Clarice. “era da boca da mulher que saía água”, água viva, como fui descobrir anos depois... da boca dessa mulher saía também a voz da escrita. foi assim... n’O primeiro beijo, o meu primeiro encontro com Clarice Lispector.

outros foram surgindo ao longo dos anos, em 2015 veio o convite para compartilhar a leitura no ateliê de psicanálise, onde, às segundas feiras, em companhia de Clarice e alguns outros, lemos com o corpo, em voz alta e silêncios.

Clarice chegou ao ateliê em Perto do Coração Selvagem, no primeiro semestre de 2015. depois foi acompanhada por Guimarães Rosa, caminhamos ao lado de Água Viva e Primeiras Estórias com palavras-paisagens pertencendo seres e sertões. no ano seguinte, continuaram juntos: encontramos Macabéa, algumas Veredas e fizemos uma pequena pausa para comemorarmos o centenário de Manoel de Barros. Minhas Queridas, livro de cartas de Clarice para as suas irmãs, já se fez presente muitas vezes e no último ano lemos Um sopro de vida.

pelos encontros literários inaugurados por Clarice no ateliê, passaram vários escritores e escritoras. tecemos cadernos, memórias, cartas, poemas… trocamos correspondências e afetos com a escrita e suas histórias.

a ação Vozes de Clarice acontece desde 2015, a cada dezembro, mês de seu aniversário, fazendo circular sua literatura. espalhamos palavras pelos cantos da cidade, nos reunimos para ler em voz alta, na biblioteca, nas ruas, ao ar livre, aproveitando a primavera... desta vez, uma presença distante, nos encontramos em casa, no youtube, spotify, instagram.

no possível de se inventar nestes tempos, um convite: fazer ecoar na voz de cada legente o desejo de ler e compartilhar a escrita de Clarice.

“Eu amo quem tem paciência de esperar por mim e pela minha voz que sai através da palavra escrita.” (Clarice Lispector, em A descoberta do mundo)

olga ferreira, setembro 2020

Para escutar as Vozes de Clarice, com leituras dos fragmentos de textos da c. lispector, você pode ir até o nosso youtube - ateliê de psicanálise e outras artes - e, também acessar nosso podcast Vozes de Clarice, no spotify. A leitura da Olga d'A hora da estrela está lá.

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